1ª aula (interpretação de poemas)

February 22nd, 2011  Posted at   Interpretação
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O vestido de Laura

(Cecília Meireles)

O vestido de Laura

É de três babados

Todos bordados

O primeiro, todinho

Todinho de flores

De muitas cores

No segundo, apenas

Borboletas voando,

Num fino bando

O terceiro, estrelas

Estrelas de renda…

-talvez de lenda…

O vestido de Laura

Vamos ver agora,

Sem mais demora!

Que as estrelas passam,

Borboletas, flores

Perdem sua cores.

Se não formos depressa

Acabou-se o vestido

Todo bordado e florido!

01- Por que o poema “O vestido de Laura” pode ser associado ou relacionado à vida do ser humano em geral?____________________________________

02- A vida, no poema, não é vista como algo estático e douradouro, mas ao contrário, como transitório e passageiro. Quais são as palavras e expressões do próprio texto que indicam essa fugacidade da existência humana? ________________________

03- Pense um pouco e responda o que o vestido de uma personagem feminina ( a mulher) tem a ver, na nossa cultura, com fases ou etapas da vida? _________________________

04- Reflita mais um pouco: você acha que, no poema, o vestido de Laura é apenas uma imagem de espaço – porque o vestido tem babados, estampas, e é vistoso – ou também é uma imagem que sugere tempo? Justifique sua resposta.______________________________________


05- Você considera este poema romântico ou realista? Por quê?_____________


Texto 1

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra

{…}

Carlos D. Andrade (Reunião)

Texto 2

As lavadeiras de Mossoró, cada uma tem sua pedra no rio: cada pedra é herança de família, passando de mãe a filha, de filha a neta, como vão passando as águas no tempo […]

A lavadeira e a pedra formam um ente especial, que se divide e se reúne ao sabor do trabalho. Se a mulher entoa uma canção, percebe-se que nova pedra a acompanha em surdina…

Carlos Drummond de Andrade(Contos sem próposito)

O morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.

Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:

Na bruta ardência orgânica da sede,

Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

Vou mandar levantar outra parede…”

Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho

E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,

Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego

A tocá-lo. Minh’alma se concentra.

Que ventre produziu tão feio parto?!

A consciência Humana é este morcego!

Por mais que a gente faça, à noite, ele entra

Imperceptivelmente em nosso quarto!

Augusto dos Anjos (Obras Completas)

TEXTO I

Ouvir estrelas

(Olavo Bilac)

Ora, (direis) ouvir estrelas! Certo

perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,

que, para ouvi-las, muita vez desperto

e abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda noite, enquanto

a Via-Láctea, como um pálio aberto,

cintila. E, ao vir o Sol, saudoso e em pranto,

inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

vocabulário

pálio= procissão

tresloucado= louco

TEXTO II

Ouvir estrelas

(Bastos Tigre)

Ora, direis, ouvir estrelas! Vejo

que estás beirando a maluquice extrema.

No entanto o certo é que não perco o ensejo

De ouvi-las nos programas de cinema.

Não perco fita; e dir-vos-ei sem pejo

que mais eu gozo se escabroso é o tema.

Uma boca de estrela dando beijo

é, meu amigo, assunto p’ra um poema.

Direis agora: Mas, enfim, meu caro,

As estrelas que dizem? Que sentido

Tem suas frases de sabor tão raro?

Amigo, aprende inglês para entendê-las,

Pois só sabendo inglês se tem ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.

vocabulário

ensejo=oportunidade

pejo= timidez

escabroso= difícil

Texto I

Metáfora

(Gilberto Gil)

Uma lata existe para conter algo,

Mas quando o poeta diz: “lata”

Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo,

Mas quando o poeta diz: “Meta”

Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso não se meta a exigir do poeta

Que determine o conteúdo em sua lata

Na lata do poeta tudonada cabe,

Pois ao poeta cabe fazer

Com que na lata venha caber

O incabível

Deixe a meta do poeta não discuta,

Deixe a sua meta fora da disputa

Meta dentro e fora, lata absoluta

Deixe-a simplesmente metáfora.

Texto I

Esquecimento

(Florbela Espanca)

Esse de quem eu era e era meu,

Que foi um sonho e foi realidade,

Que me vestiu a alma de saudade,

Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,

E foi longínqua toda a claridade!

Ceguei…tateio sombras…que ansiedade!

Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro…

A sombra dos meus olhos, a escurecer…

Veste de roxo e negro os crisântemos…

E desse que era meu já me não lembro…

Ah! a doce agonia de esquecer

A lembrar doidamente o que esquecemos…!

Domingo no parque

(Gilberto Gil)

O rei da brincadeira – ê José

O rei da confusão – ê João

Um trabalhava na feira – ê José

Outro na construção _ ê João

A semana passada

No fim de semana

João resolveu não brigar

No domingo de tarde

Saiu apressado

E não foi pra Ribeira jogar

Capoeira, não foi pra lá

Pra Ribeira, foi namorar

O José como sempre no fim de semana

Guardou a barraca e sumiu

Foi fazer no domingo um passeio no parque

Lá perto da boca do rio

Foi no parque que ele avistou

Juliana, foi que ele viu

Foi que ele viu

Juliana na roda com João

Uma rosa e um sorvete na mão

Juliana seu sonho, uma ilusão

Juliana e o amigo João

O espinho da rosa feriu Zé

E o sorvete gelou seu coração

O sorvete e a rosa – ê José

A rosa e o sorvete – ê José

O dançando no peito – ê José

Do José brincalhão – ê José

Juliana girando, oi girando

Oi na roda gigante, oi girando

O sorvete é morango – é vermelho

E a rosa é vermelha – é vermelha.

Oi girando, girando – olha a faca

Olha o sangue na mão – ê José

Juliana no chão – ê José

Seu amigo João – ê José

Amanhã não tem feira – ê José

Não tem mais construção – ê João

Mão tem mais brincadeira – ê José

Não tem mais confusão – ê João.

O Rio Severino

(Herbert Vianna)

Um tísico à mingua espera a tarde inteira

Pela assitência que não vem

Mas vem de tudo n’água suja, escura e espessa deste

Rio Severino, morte e vida vem

Mas quem não tem abc não pode entender hiv

Nem cobrir, evitar ou ferver

O rio é um rosário cujas contas são cidades

à espera de um deus que dê

Quem possa lhes dizer

Me diz o que é que você tem

A quem se pode recorrer

Me diz o que é que você tem

E muita gente ingrata reclamendo de barriga dӇgua cheia

São maus cidadãos

É essa gente analfabeta interessanda em denegrir

A boa imagem da nossa nação

Ès tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem

Acesso fácil a todos os teus bens

Enquanto o resto se agarra no rosário, e sofre a reza

À espera de um deus que não vem

O que é que você tem

Me diz o que é que você tem

O que é que eu posso te dizer

Me diz o que é que você tem.

Mulher Proletária

( Jorge de Lima)

Mulher proletária – única fábrica

que o operário tem (fabrica filhos)

tu

na tua superproteção de máquina humana

forneces braços para o Senhor Jesus,

forneces braços para o senhor bruguês

Mulher proletária,

o operário, teu proprietário

há de ver, há de ver:

a tua produção,

a tua superprodução,

ao contrário das máquinas burguesas

salvar o teu proprietário.

Cântico 1

(Cecília Meireles)

Não queiras ter Pátria.

Não dividas a Terra.

Não dividas o Céu.

Não arranques pedaços ao mar.

Não queiras ter.

Nasce bem alto,

Que as coisas todas serão tuas.

Que alcançarás todos os horizontes.

Que o teu olhar, estando em toda parte

Te ponha em tudo.

Como Deus.

O cão sem plumas

(João Cabral de Melo Neto)

Entre a paisagem

o rio fluía

como uma espada de líquido espesso.

Como um cão

humilde e espesso.

Entre a paisagem

(fluía)

de homens plantados na lama:

de casas de lama

plantadas em ilhas

coaguladas na lama;

paisagem de anfíbios

de lama em lama.

Como o rio,

aqueles homens

são como cães sem plumas.

(Um cão sem plumas

é mais

que um cão saqueado:

é mais

que um cão assassinado)

A vida e a morte

(Florbela Espanca)

O que é a vida e a morte

Agulha infernal inimiga

A vida é o sorriso

E a morte da vida a guarida

A morte tem os desgostos

A vida tem os felizes

A cova tem a tristeza

E a vida tem as raízes

A vida e a morte são

O sorriso lisonjeiro

E o mar tem o navio

E o navio o marinheiro (…)

Graça

(Adélia Prado)

O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.

A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,

os campos vestidno a relva como o carneiro a sua lâ,

a dor sem fel: uma borboleta viva espetada. (…)

(fel = coisa amarga)

Aniversário

(Fernando Pessoa)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há

séculos,

E a alegra de todos, e a minha, estava certa com uma

religião qualquer (…)

Dispersão

(Mário de Sá-Carneiro)

Perdi-me dentro mim

Porque eu era labirinto,

E hoje, quando me sinto,

É com saudades de mim.

Passei pela minha vida

Um astro doido a sonhar.

Na ânsia de ultrapassar,

Nem dei pela minha vida…

(…)

No corpo

(Ferreira Gullar)

De que vale reconstruir com palavras

o que o verão levou

entre nuvens e risos

junto com o jornal velho pelos ares?

O sonho na boca, o incêndio na cama,

o apelo na noite

agora são apenas esta

contração (este clarão)

de maxilar dentro do rosto

A poesia é o presente.

O Homem Público nº1

(Ana Cristina)

Tarde aprendi Não sou eu que estou ali

bom mesmo de roupa escura

é dara alma como lavada sorrindo ou fingindo

Não há razão ouvir.

Para conservar No entanto

este fiapo de noite velha. também escrevi coisas assim,

Que significa isso? para pessoas que nem sei mas

Há uma fita quem são,

que vai sendo cortada de uma doçura

deixando uma sombra venosa

no papel. de tão funda.

Discursos detonam.

(Cecília Meireles)

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Todo o sentido da vida

principia à vossa porta;

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa;

sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota…

(…)

Nova poética

(Mauel Bandeira)

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.

Vai um sujeito,

Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito

bem

engoma, e na primeira esquina passa um caminhão,

salpica-lhe

o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:

É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:

Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.

Mas este fica as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.



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